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28/03/2008 GMT 1

Bocage, Manuel Maria Barbosa du (1765-1805)

incubus @ 13:58

Poeta português, natural de Setúbal. Frequentou a Academia da Marinha Real (1783), tendo embarcado para Goa (1786) e servido na guarnição de Damão (1789). Mais tarde, desertou, embarcando para Macau, e daí regressou a Lisboa em 1790. Ingressou, então, na Nova Arcádia, adoptando o nome de Elmano Sadino.

Inquieto e atraído pela vida boémia, foi preso por desrespeito à igreja e ao rei, facto relacionado com os seus ideais, inspirados pela Revolução Francesa. Obrigado, por sentença, a recolher ao hospício das Necessidades, aí se dedicou ao estudo e à tradução do primeiro livro das Metamorfoses de Ovídio e à Bucólica de Virgílio. Saiu em liberdade em 1799, convertendo-se a uma vida mais regrada e subsistindo de trabalhos de tradução. Marcado pelas atribulações do seu percurso, a sua vida termina com um doloroso arrependimento, patente nos seus últimos poemas.

A sua obra enquadra-se numa fase de transição: às referências classicistas contrapõem-se as novas influências pré-românticas. Dos seus poemas irradia o angustiado sentido da existência e do aniquilamento, expresso em oposições dramáticas (o amor: céu e inferno; a morte: horror e libertação) e o já romântico gosto pelo macabro, em simultâneo com o convencionalismo arcádio das alegorias.

Sempre perseguido pela ideia de paralelismo entre a sua vida e a de Camões, morreu aos 40 anos, em Lisboa, deixando publicadas, em três volumes, Rimas (1791-1804), completadas com a publicação póstuma de novos volumes.

Bessa-Luís, Agustina (1922-)

incubus @ 13:57

Escritora portuguesa, natural de Amarante. Estreou-se, em 1948, com o romance Mundo Fechado. Residente no Porto desde 1950, ocupou o cargo de directora do Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa) e fez parte da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Colaborou em várias publicações periódicas.

É uma das mais fecundas romancistas portuguesas, destacando-se pela sua capacidade de análise psicológica, de uma minúcia quase obsessiva, em toda a complexidade de relações que se estabelecem entre as suas personagens, e pela linha caudalosa de evocações que torna a sua escrita caracteristicamente exuberante. Muitos dos seus romances têm como pano de fundo momentos ou acontecimentos da história portuguesa, ou personagens históricas. Os acontecimentos históricos do 25 de Abril foram também cenário de algumas das suas obras. É conhecido o seu interesse pela vida e obra de Camilo Castelo Branco e a influência exercida nela por José Régio.

Entre a sua vastíssima obra, que inclui, para além dos romances, biografias, contos, crónicas de viagem e literatura infantil, contam-se A Sibila (1954, Prémios Delfim Guimarães e Eça de Queirós), Contos Impopulares (1951-53), a trilogia As Relações Humanas (1964-1966, Prémio Ricardo Malheiros para o terceiro volume), A Bíblia dos Pobres (1968-70), As Fúrias (1977, Prémio Ricardo Malheiros), O Mosteiro (1980, Prémio D. Dinis), Os Meninos de Ouro (1983, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores) e, mais recentemente, Recordações Laurentinas. Algumas das suas obras, como Florbela Espanca e Longos Dias Têm Cem Anos, partem de biografias de personalidades da cultura portuguesa (neste último caso, de Vieira da Silva). Os seus romances Fanny Owen, Vale Abraão e O Mosteiro foram adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira.

Recebeu, ainda, o Prémio Nacional de Novelística (1967) e o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1992), ambos contemplando o conjunto da sua obra.

Andresen, Sophia de Mello Breyner (1919-)

incubus @ 13:55

Poetisa e contista portuguesa, natural do Porto. Frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, não tendo chegado a concluí-lo, talvez por a sua força poética não caber nos cânones universitários.

Teve uma intervenção política empenhada (ao lado do seu marido, o advogado Francisco Sousa Tavares), opondo-se ao regime Salazarista (foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos) e também, após o 25 de Abril, como deputada. Presidiu ao Centro Nacional de Cultura e à Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.

O ambiente da sua infância reflecte-se em imagens e ambientes presentes na sua obra, sobretudo nos livros para crianças: os Verões passados na praia da Granja e os jardins da casa de sua família ressurgem em evocações do mar ou de espaços de paz e amplitude.

A sua actividade literária (e política) pautou-se sempre pelas ideias de justiça, liberdade e integridade moral. A depuração, o equilíbrio e a limpidez da linguagem poética, a presença constante da Natureza, a atenção permanente aos problemas e à tragicidade da vida humana são reflexo de uma formação clássica, com leituras, por exemplo, de Homero, durante a juventude. Colaborou na revista Távora Redonda e conviveu com nomes da literatura e cultura portuguesas, como Miguel Torga, Rui Cinatti, Jorge de Sena e Vieira da Silva.

Na lírica, estreou-se com Poesia (1944), a que se seguiram Dia do Mar (1947), Coral (1950), No Tempo Dividido (1954), Mar Novo (1958), O Cristo Cigano (1961), Livro Sexto (1962, Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores), Geografia (1967), Grades (1970), Dual (1972), O Nome das Coisas (1977, Prémio Teixeira de Pascoares), Navegações (1978) e Ilhas (1989); este último voltou a ser publicado em 1996, numa edição de poemas escolhidos acompanhada de fotografias de Daniel Blaufuks. Em 1968 foi publicada uma Antologia e, entre 1990 e 1992, surgiram três volumes da sua Obra Poética. Colaborou ainda com Júlio Resende na organização de um livro para a infância e juventude, intitulado Primeiro Livro de Poesia (1993).

Em prosa, escreveu os Contos Exemplares (1962), as Histórias da Terra e do Mar (1984) e os contos infantis A Fada Oriana (1958), A Menina do Mar (1958), Noite de Natal (1959), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1956) e A Floresta (1968). É ainda autora dos ensaios Cecília Meireles (1958), Poesia e Realidade (1960) e O Nu na Antiguidade Clássica (1975), para além de trabalhos de tradução de Dante, Shakespeare e Eurípides. A sua obra literária encontra-se parcialmente traduzida em França e Itália. Recebeu, em 1994, o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e, em 1995, o Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos.

PECADO ORIGINAL

incubus @ 13:52

CORSINO FORTES
(CABO VERDE)

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

(Claridade, 1960)

AUTOPSICOGRAFIA

incubus @ 13:49

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

pena e tinteiro

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Ao Longo Das Janelas Mortas

incubus @ 13:48

Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!...Será
Que a minha perna é de pau?
Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrivel!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso
Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.
Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa
Esta carcaça miserável de sonho...

A Lembrança

incubus @ 13:45

A lembrança lança em ti
Um dardo no futuro
Um mergulho no escuro
Oceano que te encharca
e em mil gotas se refaz lembrança
Que as lagrimas caiam no papel
Como se caíssem no passado
Como o brilho da estrela
Que já é morta
Como o desencanto de teu
Antigo amado

Eliseu Becco

Movimento

incubus @ 13:44

Quero devagar...
Quero divagar...
Devagar, divagar.
Divagar, devagar.
Contrair, dilatar,
Retrair, delatar.
Diminuto amor
Amor de minuto.
Reflexo, perplexo,
Complexo
Total.

Ana Paula Vieira

Urgentemente

incubus @ 13:41

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

As palavras

incubus @ 13:36

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

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