(Einstein)
Penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho no silêncio -
e eis que a verdade se revela!
Penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho no silêncio -
e eis que a verdade se revela!
As grandes ideias são aquelas nas quais a única coisa que nos surpreende é que não nos tivessem ocorrido antes.
A esperança não é um sonho,
mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade.
O pessimista queixa-se do vento,
o optimista espera que ele mude,
e o realista ajusta as velas.
As pessoas são solitárias
porque constroem paredes em vez de pontes.
Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (...) Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é que ele não pode ser prejudicado. O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.
(Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela")
O bom humor espalha mais felicidade que todas as riquezas do mundo. Vem do hábito de olhar para as coisas com esperança e de esperar o melhor e não o pior.
(Alfred Montapert)
Escritor português, natural de Lisboa. Devido ao casamento da mãe, em segundas núpcias, com o cônsul português em Durban (África do Sul), viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo os estudos secundários.
Frequentou ainda, durante um ano, a escola comercial e a Universidade do Cabo. De regresso a Lisboa, frequentou, também por um período breve, o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, dedicou–se, a partir de 1908, a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, dedicando o restante tempo à escrita e ao estudo da Filosofia (grega e alemã, nomeadamente), das Ciências Humanas e Políticas, da Teosofia e da moderna Literatura, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo–saxónica, determinante na sua personalidade.
Levando uma vida relativamente apagada, movimentando–se no círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu–se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional. Data de 1913 a publicação de «Paúis» (poema que tentou criar uma corrente — o paúlismo) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa. Em 1915, com Mário de Sá–Carneiro e Luís de Montalvor, lançou a revista Orpheu, marco do Modernismo português. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (1921). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio oficial, que conquistou na categoria B devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922–1926, de que foi co–director), Athena (1924–1925, igualmente co–director) e Presença.
A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença; a partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais: concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou–lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram–se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo–se e completando–se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Poeta português. As informações sobre a sua biografia são relativamente escassas e pouco seguras, apoiando-se num número limitado de documentos e breves referências dos seus contemporâneos. A própria data do seu nascimento, assim como o local, é incerta, deduzindo-se a partir de uma «Carta de Perdão» real de 1553. A sua família teria ascendência galega, tendo-se embora fixado em Portugal séculos antes. Pensa-se que estudou em Coimbra, mas não se conserva qualquer registo seu nos arquivos universitários.
Serviu como soldado em Ceuta, em 1550, aí perdendo um olho. Em 1552, de regresso a Lisboa, esteve preso durante oito meses por ter ferido, numa rixa, Gonçalo Borges, um funcionário da corte. Data do ano seguinte a referida «Carta de Perdão». Nesse mesmo ano, segue para a Índia. Nos dezassete anos seguintes, serviu no Oriente, ora como soldado, ora como funcionário, pensando-se que esteve mesmo em território chinês, onde teria exercido o cargo de Provedor dos Defuntos e Ausentes, a partir de 1558. Em 1560 estava de novo em Goa, convivendo com algumas das figuras importantes do seu tempo (como o vice-rei D. Francisco Coutinho ou Garcia de Orta). Em 1567 iniciou o regresso a Lisboa. No ano seguinte, o historiador Diogo do Couto, amigo do poeta, encontrou-o em Moçambique, onde vivia na penúria; juntamente com outros antigos companheiros, conseguiu o seu regresso a Portugal, onde desembarcou em 1570. Dois anos depois, D. Sebastião concedeu-lhe uma tença, recompensando os seus serviços no Oriente e o poema épico que entretanto publicara — Os Lusíadas. Camões morreu a 10 de Junho de 1580 — ao que se diz, na miséria. No entanto, é difícil distinguir aquilo que é certo, e aquilo que é mito e lenda romântica, criados em torno da sua vida.
Da obra de Camões, foram publicados, em vida do poeta, três poemas líricos, o poema épico Os Lusíadas, e foram representadas as peças teatrais Comédia dos Anfitriões, Comédia de Filodemo e Comédia de El-Rei Seleuco. As duas primeiras peças foram publicadas em 1587; a terceira, apenas em 1645, integrando o volume das Rimas de Luís de Camões, compilação de poesias líricas antes dispersas por cancioneiros, e cuja atribuição a Camões foi feita, em alguns casos, sem critérios rigorosos. Um volume que o poeta preparou, intitulado Parnaso, perdeu-se.
Na poesia lírica, Camões concilia a tradição renascentista (sob forte influência de Petrarca, no soneto) com alguns aspectos maneiristas; noutras composições, aproveita elementos da tradição lírica nacional, numa linha que vem já dos trovadores e da poesia palaciana, de que são exemplo as redondilhas. É no tom pessoal que confere às tendências de inspiração italiana e na renovação da lírica mais tradicional que reside parte do seu génio. Nos temas, da reflexão moralista sobre o desconcerto do mundo à intensa expressão do sentimento amoroso, tem-se procurado solução para as muitas lacunas em relação à vida e personalidade do poeta — como é o caso da sua relação amorosa com Dinamene, uma amada chinesa que surge em alguns dos seus poemas, ou de outras composições, que ilustram a sua experiência da guerra e do Oriente.
No entanto, foi com Os Lusíadas que Camões, embora postumamente, alcançou a glória. Poema épico, seguindo os modelos clássicos e renascentistas, pretende fixar para a posteridade os grandes feitos dos portugueses no Oriente. Aproveitando a mitologia greco-romana, fundindo-a com elementos cristãos — o que, à época, e mesmo mais tarde, gerou alguma controvérsia — Camões relata a viagem de Vasco da Gama, tomando-a como pretexto para a narração da história de Portugal, intercalando episódios narrativos com outros de cariz mais lírico, como é o da «Linda Inês». Os Lusíadas vieram a ser tidos como o grande poema épico nacional; toda a obra de Camões, de resto, influenciou a posterior literatura portuguesa, de forma particular durante o Romantismo, que criou muitos dos mitos ligados à sua vida, mas também noutras épocas; alguns escritores e pensadores realistas colaboraram na preparação das comemorações do terceiro centenário da sua morte, pretendendo que a figura de Camões permitisse uma renovação política e espiritual de Portugal.
Escritor português, natural de Lisboa. A sua actividade desdobrou-se pelos mais variados géneros: destacando-se como novelista, foi também poeta, contista, dramaturgo, polemista, jornalista, tradutor e editor, deixando uma obra vastíssima.
A sua vida foi atribulada: ficou órfão bastante cedo, tendo passado a viver, primeiro com uma tia, em Vila Real, depois com uma irmã, período de que data a sua aprendizagem literária. Quando contava dezasseis anos, casou-se com uma aldeã, de quem cedo se separou. Estudou Medicina no Porto, de 1842 a 1844, e preparou-se para ingressar no curso de Direito em Coimbra, que não chegou a frequentar. A partir de 1848, dedicou-se à actividade jornalística, no Porto. Integrando-se no grupo dos «leões» do café Guichard, dedicou-se aos escritos polémicos e à novelística. Entre as várias aventuras amorosas que vinha tendo, salienta-se a sua paixão por Ana Plácido, cujo casamento o levou a matricular-se num seminário, em 1850. Dois anos mais tarde, regressou à actividade jornalística e literária, impondo-se nos círculos culturais de então. Em 1859, fugiu com Ana Plácido. Os dois foram presos, acusados de adultério, e absolvidos posteriormente, em 1861. Após a morte do marido de Ana Plácido, passaram a viver na casa deste, em São Miguel de Ceide. Dependente da sua escrita para sustento da família, Camilo viveu dificuldades económicas. Os seus problemas agravaram-se com o avanço progressivo da cegueira. Em 1888, casou-se com Ana Plácido e, dois anos mais tarde, suicidou-se com um tiro de pistola.
A produção literária de Camilo sofreu grande influência das atribulações, nomeadamente amorosas, da sua vida. Tendo de se sujeitar frequentemente às exigências dos seus editores, fazendo cedências, apressando a escrita, recorrendo a estereótipos que satisfizessem o gosto da época, a sua produção é algo irregular e apresenta algumas falhas. No entanto, soube pintar de forma ímpar os costumes e gentes da sua região e os seus modos de falar; as suas personagens revelam ainda uma intensidade passional que o celebrizou.
Considerado um dos grandes prosadores românticos, ainda durante a sua vida foi muito admirado pela geração ultra-romântica, e homenageado oficialmente recebendo, em 1885, o título de visconde de Correia Botelho.
É geralmente tido como um dos grandes escritores portugueses.
Entre as suas obras, incontáveis, destacam-se as novelas e contos Anátema (1851), Mistérios de Lisboa (1854), Livro Negro do Padre Dinis (1855), Doze Casamentos Felizes (1861), Amor de Perdição (1862), Coração, Cabeça e Estômago (1862), Amor de Salvação (1864), Luta de Gigantes (1865), A Queda dum Anjo (1866), Novelas do Minho (1875-1877), Eusébio Macário (1879) e A Brasileira de Prazins (1882). Como polemista, escreveu, entre outros textos, Os Críticos do Cancioneiro Alegre (1879) e a Questão da Sebenta (1883).
Poeta português, natural de Setúbal. Frequentou a Academia da Marinha Real (1783), tendo embarcado para Goa (1786) e servido na guarnição de Damão (1789). Mais tarde, desertou, embarcando para Macau, e daí regressou a Lisboa em 1790. Ingressou, então, na Nova Arcádia, adoptando o nome de Elmano Sadino.
Inquieto e atraído pela vida boémia, foi preso por desrespeito à igreja e ao rei, facto relacionado com os seus ideais, inspirados pela Revolução Francesa. Obrigado, por sentença, a recolher ao hospício das Necessidades, aí se dedicou ao estudo e à tradução do primeiro livro das Metamorfoses de Ovídio e à Bucólica de Virgílio. Saiu em liberdade em 1799, convertendo-se a uma vida mais regrada e subsistindo de trabalhos de tradução. Marcado pelas atribulações do seu percurso, a sua vida termina com um doloroso arrependimento, patente nos seus últimos poemas.
A sua obra enquadra-se numa fase de transição: às referências classicistas contrapõem-se as novas influências pré-românticas. Dos seus poemas irradia o angustiado sentido da existência e do aniquilamento, expresso em oposições dramáticas (o amor: céu e inferno; a morte: horror e libertação) e o já romântico gosto pelo macabro, em simultâneo com o convencionalismo arcádio das alegorias.
Sempre perseguido pela ideia de paralelismo entre a sua vida e a de Camões, morreu aos 40 anos, em Lisboa, deixando publicadas, em três volumes, Rimas (1791-1804), completadas com a publicação póstuma de novos volumes.
Escritora portuguesa, natural de Amarante. Estreou-se, em 1948, com o romance Mundo Fechado. Residente no Porto desde 1950, ocupou o cargo de directora do Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa) e fez parte da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Colaborou em várias publicações periódicas.
É uma das mais fecundas romancistas portuguesas, destacando-se pela sua capacidade de análise psicológica, de uma minúcia quase obsessiva, em toda a complexidade de relações que se estabelecem entre as suas personagens, e pela linha caudalosa de evocações que torna a sua escrita caracteristicamente exuberante. Muitos dos seus romances têm como pano de fundo momentos ou acontecimentos da história portuguesa, ou personagens históricas. Os acontecimentos históricos do 25 de Abril foram também cenário de algumas das suas obras. É conhecido o seu interesse pela vida e obra de Camilo Castelo Branco e a influência exercida nela por José Régio.
Entre a sua vastíssima obra, que inclui, para além dos romances, biografias, contos, crónicas de viagem e literatura infantil, contam-se A Sibila (1954, Prémios Delfim Guimarães e Eça de Queirós), Contos Impopulares (1951-53), a trilogia As Relações Humanas (1964-1966, Prémio Ricardo Malheiros para o terceiro volume), A Bíblia dos Pobres (1968-70), As Fúrias (1977, Prémio Ricardo Malheiros), O Mosteiro (1980, Prémio D. Dinis), Os Meninos de Ouro (1983, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores) e, mais recentemente, Recordações Laurentinas. Algumas das suas obras, como Florbela Espanca e Longos Dias Têm Cem Anos, partem de biografias de personalidades da cultura portuguesa (neste último caso, de Vieira da Silva). Os seus romances Fanny Owen, Vale Abraão e O Mosteiro foram adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira.
Recebeu, ainda, o Prémio Nacional de Novelística (1967) e o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1992), ambos contemplando o conjunto da sua obra.
Poetisa e contista portuguesa, natural do Porto. Frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, não tendo chegado a concluí-lo, talvez por a sua força poética não caber nos cânones universitários.
Teve uma intervenção política empenhada (ao lado do seu marido, o advogado Francisco Sousa Tavares), opondo-se ao regime Salazarista (foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos) e também, após o 25 de Abril, como deputada. Presidiu ao Centro Nacional de Cultura e à Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.
O ambiente da sua infância reflecte-se em imagens e ambientes presentes na sua obra, sobretudo nos livros para crianças: os Verões passados na praia da Granja e os jardins da casa de sua família ressurgem em evocações do mar ou de espaços de paz e amplitude.
A sua actividade literária (e política) pautou-se sempre pelas ideias de justiça, liberdade e integridade moral. A depuração, o equilíbrio e a limpidez da linguagem poética, a presença constante da Natureza, a atenção permanente aos problemas e à tragicidade da vida humana são reflexo de uma formação clássica, com leituras, por exemplo, de Homero, durante a juventude. Colaborou na revista Távora Redonda e conviveu com nomes da literatura e cultura portuguesas, como Miguel Torga, Rui Cinatti, Jorge de Sena e Vieira da Silva.
Na lírica, estreou-se com Poesia (1944), a que se seguiram Dia do Mar (1947), Coral (1950), No Tempo Dividido (1954), Mar Novo (1958), O Cristo Cigano (1961), Livro Sexto (1962, Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores), Geografia (1967), Grades (1970), Dual (1972), O Nome das Coisas (1977, Prémio Teixeira de Pascoares), Navegações (1978) e Ilhas (1989); este último voltou a ser publicado em 1996, numa edição de poemas escolhidos acompanhada de fotografias de Daniel Blaufuks. Em 1968 foi publicada uma Antologia e, entre 1990 e 1992, surgiram três volumes da sua Obra Poética. Colaborou ainda com Júlio Resende na organização de um livro para a infância e juventude, intitulado Primeiro Livro de Poesia (1993).
Em prosa, escreveu os Contos Exemplares (1962), as Histórias da Terra e do Mar (1984) e os contos infantis A Fada Oriana (1958), A Menina do Mar (1958), Noite de Natal (1959), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1956) e A Floresta (1968). É ainda autora dos ensaios Cecília Meireles (1958), Poesia e Realidade (1960) e O Nu na Antiguidade Clássica (1975), para além de trabalhos de tradução de Dante, Shakespeare e Eurípides. A sua obra literária encontra-se parcialmente traduzida em França e Itália. Recebeu, em 1994, o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e, em 1995, o Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos.
CORSINO FORTES
(CABO VERDE)
Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.
Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.
Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.
E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...
(Claridade, 1960)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
pena e tinteiro
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!...Será
Que a minha perna é de pau?
Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrivel!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso
Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.
Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa
Esta carcaça miserável de sonho...
A lembrança lança em ti
Um dardo no futuro
Um mergulho no escuro
Oceano que te encharca
e em mil gotas se refaz lembrança
Que as lagrimas caiam no papel
Como se caíssem no passado
Como o brilho da estrela
Que já é morta
Como o desencanto de teu
Antigo amado
Eliseu Becco
Quero devagar...
Quero divagar...
Devagar, divagar.
Divagar, devagar.
Contrair, dilatar,
Retrair, delatar.
Diminuto amor
Amor de minuto.
Reflexo, perplexo,
Complexo
Total.
Ana Paula Vieira
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
Eugénio de Andrade
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade

Cada sensaçao é um estado de espirito....
Sentir....
Que bela palavra...francamente bem pensada, traz consigo o milagre que oculta a fatalidade.
Aquele vento capaz de fazer tremer. Aquela porta que se abre para nos.
Sejamos prazerosos e orgulhosos de um sentimento profundo.

Uma noite parece ser vista como mais uma!!!
Mais um momento passado espelhado num presente que recorda cada segundo. Aquela sensaçao, derrepente, transfigura-se!!! Um novo olhar aparece e faz tudo parecer como nunca antes.
Fica a vontade de continuar....
Fica o prazer que nos da...
Fica a incesante sensaçao que me faz fultuar.
Ao meu alcance esta porta que me leva para la....
A chave esta-me no sangue.....
A vontade de a atravessar esta presente....
Oculto como sempre,expectante como nunca....
Aqui estou.... Quero entrar!!!
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